Artigo publicado na Revista Cinco+ – 2017 Lua – A memória e a fome em que se navega

Se o Ascendente é o timão da embarcação e seu regente, o capitão que aponta a direção do navegar, a Lua é a senhora do movimento e do ritmo, a memória que é necessidade fundadora do navegar, a fome que não cessa, a sereia que encanta embarcações com seus lamentos.
Os testemunhos naturais a Lua são aqueles da memória, da mãe, das gestações, das viagens, das mudanças, da popularidade, da casa e do corpo. Mas aqui cabem apenas pinceladas gerais sobre os sentimentos, as necessidades emocionais que acarretam e a ação das quais se alimentam.

A interpretação da Lua natal dependerá, grosso modo, da casa em que se encontra e das condições de seu dispositor – planeta que rege o signo da casa em que está.
Por exemplo em Áries, um signo de Fogo – seco e quente – os desejos têm urgência e intensidade. A paixão é a franqueza crua, o que agride sem culpa e sem razão. A velocidade marca seu passo e em um minuto a irritação desaparece no eco das gargalhadas. A Lua em Áries costuma não guardar ressentimentos; explode, exterioriza e já não lembra o porquê da irritação. Guiada por suas paixões, a submissão ao desejo do outro soa como uma desonra à vida que lhe move. A liberdade de viver apenas o que deseja não tem preço.
A paixão e a liberdade alimentam essa Lua e por essas necessidades travará suas batalhas.
Se essa Lua em Áries estiver na Casa XII – a casa dos medos, inimigos secretos, aprisionamentos, daquilo que não é visível para o nativo – as características lunares provavelmente não aparecerão conscientemente. Nesse caso a necessidade de estar livre para atender os próprios desejos agirá de forma velada e Marte, o dispositor de Áries, testemunhará sobre o terreno e as armas da luta por satisfação – sim, porque é dessa maneira que Marte age, lutando. Com Marte em Gêmeos na Casa II, a liberdade exige luta em terreno financeiro, e a falta de recursos será sua prisão. Gêmeos, o signo do dispositor da Lua, fornecerá as armas a Marte: o intelecto, as palavras e a capacidade de comunicação.

Veja o mapa de Simone de Beauvoir(1):

mapa natal simone beauvoir.jpg

Rodden Rating AA
Fonte: AstroDatabank

Sensibilidade, imaginação, ideais e disponibilidade são os alicerces das emoções. A empatia e a necessidade de integração, assim como a compaixão e a solidariedade, levam o nativo a esquecer de si mesmo: um sacrifício por um ideal, um bem maior – o outro.

A Lua de Simone de Beauvoir está na Casa IV, a casa do que está no subterrâneo, das heranças ancestrais e do fim das coisas.
A necessidade de integração e a empatia com ideais de igualdade se manifestam em questões que se perpetuam por gerações, no lugar destinado à mulher – mantida nos porões da vida.
Não posso deixar de comentar a conjunção da Lua com Marte e Saturno nesse mapa: os dois maléficos matizam a expressão das emoções lunares piscianas com agressão, exclusão e luta.
Agora que a forma de expressão das emoções lunares foi delineada e trouxe à tona as necessidades que criam, Júpiter, o dispositor da Lua, dirá sobre o alimento capaz de saciá-las.
O fim dos ideais que mantinham, ou mantêm, a mulher enterrada por gerações e a saciedade da necessidade de integração e inclusão se manifestam no terreno da Casa IX – a dos estudos, da filosofia, da ética e da literatura. Simone foi uma filósofa, que se utilizou da literatura e do saber como meio de expressão de seus ideais.
Leão – signo dessa casa, em que Júpiter se encontra – fornecerá o modo de atuação: coragem, assertividade, carisma e elegância.
É assim que a Lua em Peixes de Beauvoir se nutre.

Chamo atenção para mais um detalhe: Leão é um signo de Fogo assim como Áries, mas o Carneiro tem uma natureza mais seca, o que torna sua ação mais agressiva e destituída do carisma e elegância leoninos. Essas características são fundamentais no êxito da popularidade e certamente foram determinantes na expansão dos ideais inscritos na obra de Simone de Beauvoir.

No próximo encontro o tema será o Sol, suas influências e importância.
É do Sol a luz que faz brilhar a Lua. Haverá um nome para aquilo que sem pedir licença deixa à vista a escuridão profunda do oceano?

 

(1)  Simone de Beauvoir foi uma escritora, intelectual, filósofa existencialista, ativista política, feminista e teórica social francesa. Teve uma influência significativa tanto no existencialismo feminista quanto na teoria feminista.